1º Encontro TRIC: Desafios operacionais e o custo da burocracia nas fronteiras do Mercosul


Representação gráfica criada por inteligência artificial (ChatGPT).
O 3º painel do 1º Encontro do Transporte Rodoviário Internacional de Cargas (TRIC), intitulado "Desafios Operacionais e Impactos na Competitividade", expôs de forma direta os principais obstáculos enfrentados pelas empresas que operam nas estradas do Mercosul. Sob a mediação de Gisele Coelho Neto (ANTT), o debate evidenciou que o transporte internacional possui particularidades complexas, nas quais o transportador lida diariamente com exigências severas de embarcadores, legislações de múltiplos países e a imprevisibilidade nos postos de fronteira.
Abaixo, detalhamos os principais gargalos discutidos pelos especialistas e as propostas apresentadas para mitigar o impacto desses entraves na logística de comércio exterior.
### 1. O Custo Oculto do Caminhão Parado nas Fronteiras
Danilo Guedes (NTC&Logística) apontou a falta de previsibilidade na liberação das cargas como um dos maiores gargalos para a competitividade do setor. Estima-se que um caminhão parado na fronteira custe, em média, R$ 1.500,00 por dia.
Esses custos de ociosidade, muitas vezes desconsiderados ou incompreendidos pelos embarcadores, encarecem diretamente o frete final. Enquanto um veículo no transporte nacional roda cerca de 12 mil km por mês, a média no transporte internacional cai para 7 a 8 mil km mensais devido ao tempo de espera aduaneira, afetando a eficiência da frota.
### 2. A Lei do Motorista e a Dilatação do Transit Time
Julia Borghetti (ABTI) trouxe à tona um detalhe operacional crítico decorrente da atual interpretação jurídica da Lei do Motorista:
A regra de descanso: O motorista precisa cumprir 11 horas de descanso ininterruptas.
A dinâmica nas fronteiras: Se o motorista aguarda a fiscalização aduaneira por 12 horas, esse período é contabilizado como jornada de trabalho. Assim que a carga é liberada para seguir viagem, ele é legalmente obrigado a parar por mais 11 horas para o descanso obrigatório.
O reflexo na operação: Esse fluxo adiciona de um a dois dias extras ao *transit time* total da viagem, o que eleva os custos operacionais e prolonga o período de ausência dos motoristas de suas residências.
### 3. A "Cultura do Papel" e os Gargalos Sistêmicos nas Aduanas
O consultor de comércio exterior Eduardo Simas criticou a persistência de processos burocráticos físicos. Apesar de existirem acordos consolidados no Mercosul para o uso de documentos eletrônicos — como o MIC/DTA —, muitas aduanas de fronteira ainda exigem o documento impresso e carimbado. Entre os pontos críticos citados, destacam-se:
Redigitação de dados: As mesmas informações de uma exportação chegam a ser digitadas até sete vezes em sistemas distintos de diferentes órgãos, o que aumenta a margem de erro e gera retrabalho.
Gargalo em Foz do Iguaçu: A operação local determina que as exportações ocorram durante o dia e as importações à noite, criando um contrafluxo que congestiona as vias de acesso à ponte.
Assimetria de fiscalização na Argentina: No país vizinho, o fluxo de liberação é significativamente mais lento, resultando em cerca de 60% das cargas direcionadas para o "canal vermelho" (conferência física), enquanto no Brasil esse índice médio é de apenas 2%.
### 4. Gestão Coordenada de Fronteiras e o Avanço do OEA
Antônio Márcio de Oliveira Aguiar, representante da Receita Federal, reconheceu as críticas do setor e reforçou o compromisso do órgão com a modernização. O foco do governo está voltado para a Gestão Coordenada de Fronteiras, buscando a atuação unificada e integrada das agências públicas.
A principal aposta da Receita Federal é o programa de Operador Econômico Autorizado (OEA). A meta é garantir que transportadores e empresas certificados como OEA tenham acesso a um "canal verde" permanente, permitindo que o caminhão cruze a fronteira em até 5 minutos — em alguns cenários, por meio de sistemas de pátio virtual, sem a necessidade de o motorista descer do veículo.
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Como destacado pela mediadora Gisele Coelho Neto (ANTT) ao final do painel, a fronteira precisa atuar como uma ponte de integração, e não como um obstáculo. A modernização do TRIC vai além de uma questão financeira ou de aumento de lucros; trata-se de uma medida indispensável para humanizar a atividade logística, reduzindo o tempo de espera de motoristas que hoje chegam a enfrentar de 20 a 30 dias parados em condições precárias nas fronteiras devido a entraves burocráticos. Para as transportadoras, o domínio sobre o planejamento operacional e a preparação para certificações de facilitação comercial, como o OEA, são os caminhos mais seguros para mitigar esses riscos.
(Esta é a terceira parte de nossa cobertura especial sobre o 1º Encontro TRIC. Continue acompanhando nosso blog para mais análises sobre os rumos do transporte internacional de cargas).


